quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Casa de amianto 1

Hoje, estou triste
Falta um bocado de mão no meu ombro e um bocado de mão minha no ombro alheio. Eu queria saber falar bobagens melosas que convencessem, mas a gente vê tanta televisão que já nasce convencido.


Abre-se da gaveta de guardados antigos seção Nostálgicos Panfletários:

****
odontocardiologia

dentes,
a única parte do corpo que não sente prazer.
só faz sons estranhos,
trabalha
mastiga
rói
faz restos
se arreganha
se trinca
se esfarela
se suja
se lava
sente dor
dói,
mas não sente prazer

Então é isso! O meu coração é uma arcada dentária

*****
chorumelas existenciais

Astácia acena no vento
Espera abrir a porta
Contorna a multidão
E entra no ônibus

Astácia enxerga recortes de Le Cobusier pela janela suja
As linhas dos prédios lá fora
As tortas diagonais dos braços ali dentro
Astácia quer chorar
contém-se apertando a barra de ferro

Astácia avista a chegada
Puxa a corda
E cambaleia até a porta

Astácia desce do ônibus
atravessa o asfalto áspero
e senta na grama
sem vontade de exitir

Astácia está acabada
água, sal
e vontade de se perder no horizonte
*****

5 comentários:

yuri disse...

Certas coisas devem conquistar desde o começo. Casa de Amianto 1, já no título me arranca graça.

pit disse...

pra mim não tem a ver com título.
acredito que falte algo, alguma coisa precisa ser digerida nesse texto, nâo sei...

yuri disse...

AQUELA frase.

AnaRita disse...

o título vem da idéia das casas de amianto que parecem proteger, mas o material faz barulho danado quando chove e dependendo pode ser tóxico.
Pit, não entendi o trem da digestão

pit disse...

uai rita.
é isso mesmo, eu acho, sei lá.
eu e o seu texto, a gente não se entendeu totalmente...