segunda-feira, 24 de março de 2008

Larva fria

Sempre tem esses dias em que a gente resolve olhar a rua. Carros, semáforos, placas e...a rua,
essa palavra tão vertical que manda a gente ficar de pé. Ela exige pouco contato, quando muito pé ou roda. Tudo passando rapidinho para não roçar muito o pudor. "Coisa de milico", conspiraria meu avô quase comunista.

Rua faz armadilha pras gentes nem se atreverem. Fica quente de fritar o ovo e encharcada de dar doença. Rua é vilã de história de carochinha ordenando o passo, firmando o chão pra esfolar joelho de menino atrevido. Rua grita o jeito que tem que ser e fica impassiva, a malvada.

Só que naquela terça cinzenta eu me recusei. Sinal ficar vermelho e eu falei "Sinto muito, dona". Finquei a bunda no meio da rua. Buzinaram e o issíos doeram no asfalto. E eu deitei molhando os dedos na faixa de ultrapassagem. Gritaram:"Louca, suícida, filha da puta".

Eu não respirava, senhores. Eu não ouvia o zumbido dos carros. Tinha mudado a rua! Arrancado as botas, o uniforme e a vara de cipó. Tava lá ela, desnudada com minha horizontalidade estacionária. "Vamos, o que você vai fazer agora, hein?"A boca procurou o nome... Extâse? Epifania? Sincope semântica!

Mas a tarde era mesmo cinza. Ninguém reparou na erupção da palavra. E eu descobri que o gozo de mudar o mundo dura só o tempo de não perder o ônibus.

6 comentários:

pit disse...

eu gostei, rita.

yuri disse...

Até que enfim, alguém falou um palavrão além de mim, aqui no caco.

pit disse...

desculpa, eu fico envergonhada. além disso, não sou muito fluente em palavrões.

pit disse...

não em textos

AnaRita disse...

palavr�o d� nisso, o povo s� presta aten�o nele

Lara disse...

"E eu descobri que o gozo de mudar o mundo dura só o tempo de não perder o ônibus."

quero essa frase na parede do meu quarto (sem desmerecer o resto do texto, que ficou muito bom).