quinta-feira, 3 de abril de 2008

Carlota

Alojada logo abaixo da janela, Carlota desviava a cara feia da luz inclinada, alaranjada e quente, bonita, mas quente; preferia ficar ali a fugir totalmente do calor, porque era ali que podia se redimir, chorando à vontade. Pegou o pequeno baú verde e envelhecido, lotado das coisas dignas de se guardar em baús, como um refugo de memórias assustadas que devem ser esquecidas, mas para Carlota funcionava como uma catarse por meio do passado. Abriu o caixote e olhou as fotos sépias, carcomidas, algumas meio queimadas, mas quase invencíveis ao tempo, porque Carlota até podia morrer, mas as fotografias ficariam para sempre. Olhou uma a uma, seguindo o ritual semanal, e como sempre tudo começou com um tremor sutil, depois a mão resfolegou e quase tombou o baú; primeiro a mãe, o pai, a avó, o avô, os filhos, o marido, todas as pessoas que já estiveram com ela, e que agora caíam para os véus da eternidade, e Carlota foi acometida de tremeliques violentos que lhe sacudiam o penteado horroroso, o batom escandalosamente vermelho borrou ao prenúncio de um gemido, o nariz fungou com um barulho que os vizinhos gostariam de evitar, e as lágrimas respingaram enfim como um gozo quente e descontrolado, escorrendo pela janela e evaporando ao encontro cálido com a luz inclinada.

Até que Carlota parou de tremer e suas tristezas equivocadamente solitárias voltaram ao pó.

3 comentários:

Flávio A disse...

é, senhores, ao que parece voltei depois de um looooongo hiato.

yuri disse...

ô Flávio, isso tudo é para comemorar a chegada da Família Real? =D

Flávio A disse...

hahahaahahah!!! nooooossa! não, não pensei nisso na verdade... será que a família real ficou no meu subconsciente?